«O fim para que os homens inventaram os livros foi para conservar a memória das coisas passadas contra a tirania do tempo, e contra o esquecimento dos homens, que ainda é maior tirania» - Padre António Vieira


Black Uhuru






Sinsemilla
Selecção de PCD

Vozes Razoáveis (519): Ratazana

«[...] Já vimos como nas crianças, modelos astutos para a aprendizagem, rapidamente surgem resultados. É a inteligência como enciclopédia e como juízo e repressão do desvio rebelde. São as boas acções de boy-scout, que, dado a sua posição de subordinação, entram no jogo do engano e do preenchimento do lugar do adulto.
Quando tais miúdos crescerem e não tiverem ninguém que mande, transformar-se-ão em ratos Mickey, o único ser vivo à margem da procura de ouro para si próprio, o único que sempre aparece como ajudante dos demais em dificuldades, e que consegue sempre compensações para outrem. (Naturalmente que, de vez em quando, se embolsam uns poucos dólares... bom, mas quem pode censurá-lo, se há tantos.) Para Mickey, a inteligência serve para revelar um mistério, para devolver a simplicidade a um mundo que homens maus complicaram, para poderem roubar à vontade. Se se levar em conta que a criança também se defronta com um universo desconhecido, que deve ir explorando com a sua mente e com o seu corpo, veremos que aqui se estabelece como o modo de aproximação ao mundo tem que ser detectivesco, isto é, encontrando chaves e armando quebra-cabeças construídos por outros. E chegar sempre à mesma conclusão: o mal-estar neste mundo deve-se à existência de uma divisão moral. A felicidade (e as férias) pode reinar, logo que os bandidos estejam encarcerados, devolvidos à ordem. Mickey é um agente pacificador não oficial e não recebe outra compensação que não seja a sua própria virtude. É a lei, a justiça, a paz que se afastam do mundo do egoísmo e da concorrência, repartindo os bens com toda a gente. O altruísmo de Mickey serve para prestigiar o que ele representa e isolá-lo do sistema competitivo, de cujos benefícios não participa: os guardiões da ordem, o poder público, os servidores sociais não estão manchados pelos inevitáveis defeitos do mundo mercantil. Pode confiar-se em Mickey como sendo um juiz imparcial e um agente que está “acima dos ódios partidários”. [...]»


[Ariel Dorfman / Armand Mattelart, Para Ler o Pato Donald: Lisboa, trad. Maria do Carmo Guerreiro / A. Silva, Iniciativas Editoriais, 1975;
no clip: excerto de Zéro de Conduite (Jean Vigo)]

Selecção de PCD

Pascal Comelade




Egyptian Reggae

Selecção de PCD

Rickie Lee... Jones!




White Girl

Selecção de PCD

Vozes Razoáveis (518): Pato à Pequim


«[...] Como Donald é por definição torpe e descuidado, despedem-no constantemente. “Rua, pato! Já é a terceira vez que dormes sobre a massa.” “Estás despedido, pato! Vai-te com as tuas cantigas para outro lado.” “Despedido, pato, quem te ensinou decoração? Algum índio?” Assim o seu trabalho transforma-se na obsessão por conservar o trabalho, por evitar as catástrofes que o perseguem para onde quer que vá. Converte-se em desempregado por ineficiência, num mundo aonde abundam empregos. Conseguir não é problema, porque a oferta supera de longe a procura, tal como o consumo baixa a produção. O facto de Donald, à semelhança do lobo Feroz, dos irmãos Metralha e de uma infinidade doutros, estar sempre a ser escorraçado indica que o seu desemprego é produto da sua livre vontade ou da sua ineficiência. Donald representa para o leitor o desempregado, mas esse desemprego – que historicamente é provocado pela crise estrutural do sistema capitalista – não tem, no caso, outra causa senão a personalidade do protagonista. O fundamento sócio-económico desaparece para surgir uma explicação psicologista: nos aspectos anormais e exóticos da atitude individual do ser humano radicam as causas e consequências de qualquer fenómeno social. Ao converter a pressão económica numa pressão sumptuária, e ao fazer proliferar as disponibilidades de ocupação, reina no mundo de Donald a verdadeira liberdade, a liberdade de desemprego.
Os empresários, no mundo actual, propagandeiam a palavra-de-ordem da liberdade de trabalho: todo o cidadão é livre de vender a sua força-de-trabalho e escolher a quem a vende e ir embora se não gostar. No mundo da fantasia, esta liberdade de trabalho deixa de ser um mito e transfroma-se em realidade tomando a forma de liberdade de desemprego.
[...] Tal como o dinheiro se abstrai do objecto, assim a aventura é abstracção do suor. O que é necessário para conseguir ouro é uma aventura, e nunca um processo produtivo. Mais um modo, portanto – como se não bastassem os outros –, para disfarçar a origem da riqueza. Mas a cobertura de aventura traz consequências morais: uma vez que o personagem só a padece e nunca é ele a pô-la em marcha, ensina que é necessário obedecer aos desígnios do destino, aceitar os golpes da sorte, porque, se desse modo se endivida na fatalidade uma pessoa, também daí advirão alguns dinheiros. O ritmo demoníaco do mundo, o seu sadismo ameaçador, as suas esquinas perigosas e aguçadas, os seus golpes e fracturas, não é de negar, pois tudo desemboca na providência. É um universo aterrador, sempre a pontos de colapso, mas a resignação é a única filosofia do êxito. O homem nada merece, e se consegue alguma coisa, deve-se isso à sua humanidade, ao aceitar a sua própria impotência.
Apesar desta mistificação, Donald é tido como o representante autêntico do trabalhador contemporâneo. Mas enquanto este precisa, de facto, do salário, para Donald é prescindível: enquanto o trabalhador procura desesperado, Donald encontra sem problemas; enquanto o primeiro produz e sofre como resultado da matéria que se lhe opõe e da exploração de que é objecto, Donald sofre ilusoriamente o peso negativo do trabalho como aventura.
[...] O imaginário infantil, enquanto projecto de Disney, permite a apropriação de coordenadas reais e da angústia do homem actual, mas priva da sua denúncia, das contradições efectivas e dos meios para superá-los. [...] o absurdo do universo de Disney, onde a inocência cobre a perversidade indigna do sistema e onde o prémio providencial reassegura a vítima de que não deve sequer pôr em causa os fundamentos da sua própria desgraça. [...]»

[Ariel Dorfman / Armand Mattelart, Para Ler o Pato Donald: Lisboa, trad. Maria do Carmo Guerreiro / A. Silva, Iniciativas Editoriais, 1975]

Selecção de PCD


Selecção de PCD

Antena: Bob Marley / Gil Scott Heron








«CONCRETE JUNGLE

[Bob Marley]

No sun will shine in my day today (no sun will shine)
The high yellow moon won’t come out to play
(that high yellow moon won’t come out to play)
I said (darkness) darkness has covered my light (and the stage)
And has changed my day into night, yeah.
Where is the love to be found? (oo-ooh-ooh)
Won’t someone tell me?
’Cause my (sweet life) life must be somewhere to be found
(must be somewhere for me)
Instead of concrete jungle (jungle!)
Where the living is harder (concrete, jungle!).
Concrete jungle (jungle!)
Man you got to do your (concrete, jungle!) best.

No chains around my feet,
But I’m not free, oh-ooh!
I know I am bound here in captivity
G’yeah, now (never, know) I’ve never known happiness (never, know)
I’ve never known what sweet caress is
Still, I’ll be always laughing like a clown
Won’t someone help me? ’Cause I (sweet life)
I’ve got to pick myself from off the ground (must be somewhere for me), he-yeah!
In this a concrete jungle (jungle!)
I said, what do you got for me (concrete, jungle!) now, o-oh!
Concrete jungle (la la-la!), ah, won’t you let me be (concrete, jungle!), now.
Hey! Oh, now!

I said that life (sweet life) it must be somewhere to be found
(must be somewhere for me)
Oh, instead of concrete jungle (jungle!) illusion (concrete, jungle!)
confusion (confusion, concrete, jungle!) Eh!
Concrete jungle (jungle!): baby, you’ve got it in.
Concrete jungle (concrete, jungle!), now. Eh!
Concrete jungle (jungle!).
What do you got for me (concrete,jungle!) now?»

Selecção de PCD

Lou Reed e Carolina









«CAROLINE SAYS I


Caroline says that I’m just a toy
She wants a man, not just a boy
Oh, Caroline says, oh, Caroline says.

Caroline says she can’t help but be mean
Or cruel, or oh so it seems
Oh, Caroline says, Caroline says.

She says she doesn’t want a man who leans.
Still she is my Germanic Queen
Yeah, she’s my Queen.

The things she does, the things she says
People shouldn’t treat others that way
But at first I thought I could take it all.

Just like poison in a vial, hey, she was often very vile
But of course, I thought I could take it all.

Caroline says that I’m not a man
So she’ll go get it catch as catch can
Oh, Caroline says, yeah, Caroline says.

Caroline says moments in time
Can’t continue to be only mine
Oh, Caroline says, yeah, Caroline says
She treats me like I am a fool
But to me she’s still a German Queen
Oh, she’s my Queen…


CAROLINE SAYS II

Caroline says… as she gets up off the floor
Why is it that you beat me… it isn’t any fun
Caroline says… as she makes up her eye
You ought to learn more about yourself
Think more than just I.

But she’s not afraid to die
All of her friends call her Alaska
When she takes speed, they laugh and ask her
What is in her mind, what is in her mind.

Caroline says… as she gets up from the floor
You can hit me all you want to, but I don’t love you anymore
Caroline says… while biting her lip
Life is meant to be more than this
And this is a bum trip.

But she’s not afraid to die
All of her friends call her Alaska
When she takes speed, they laugh and ask her
What is in her mind, what is in her mind.

She put her fist through the window pane
It was such a funny feeling
It’s so cold in Alaska…»
Selecção de PCD

Vozes Razoáveis (517): «Berlin», Lou Reed...

«[...] his solo masterwork, Berlin. Lugubrious and orchestral, almost Wagnerian, it concerns two amphetamine misfits in that divided city who drive each other and their children on unhappy ends.
Berlin is an expansion of the song in solo album #1, which may have concerned the experience of knowing Nico, who grew up 100 kilometers to the south. Surely her Teutonic high romanticism and predilections for doom were irresistible inspiration to an American rock and roller trying to cut away from his roots [Coney Island]. However it is another one of Lou’s secrets whether Nico’s compulsions, which could include multi-national sexual and chemical experiments, were included into those of Caroline, the album’s anti-heroine. At one point he intimated that “Caroline” lived in New York, didn’t have children, but did have suicidal tendencies.
Caroline has Nico beat twenty times over, though, when it comes to self-destruction. A blonde, beautiful, aspiring actress, she meets her American husband by the Berlin Wall, bears him two daughters, and proceeds viciously to destroy their lives. Growing ever more independent, wilful and compulsive, she tells her husband – the narrator, the role assumed by Lou – of his failure as a lover and a man. She makes [Walk On the] Wild Side’s Candy Darling look like a frigid feminist, slip-sliding through every form of sex the city has to offer; “the black Air Force sergeant was not the first one”. She does a whole mess of drugs and then looks around for more trouble to get into. Raging with pain, the narrator locks himself into impotence. He is the victim – “And I’m the water boy?” – looking on at “that miserable fucking rotten slut couldn’t turn anyone away”. In the most harrowing song of the album, The Kids, Caroline has her daughters taken away by a Responsible Agency (the sex police?), and their sobs build with the band into a wail of symphonic pain. Rage, brutality, betrayal and suicide follow, in terms so vivid many fans could not make it all the way through. “It may be”, considered Lester Bangs, “the grandest dreariness you ever heard.”
The emotional intensity of the album is maintained by the production and arrangement talents of Bob Ezrin. […]



Contacted by business manager Dennis Katz, Ezrin discussed with Lou the concept of an album built entirely around movie images, a “film for the ears”. Lou “agreed to write a story and create a character around himself”. The idea was so fully actualized that they “shot stills from this nonexistent movie that’ll be included with the lyric booklet”, Ezrin told Rolling Stone.
The two then lined up Lou’s most powerful band since the early Velvets, with Stevie Winwood [ex-Spencer Davis Group, ex-Traffic] on keyboards, Jack Bruce [ex-Cream, ex-Blind Faith] on bass, Aynsley Dunbar and B. J. Wilson on drums, and [Alice] Cooper session guitarists Richard Wagner and Steve Hunter. Lamenting in the Daily News that the original song Berlin “wasn’t done right, and I was very sad about it”, Lou nonetheless found himself with the full complement of outstanding musicians. For once, rock’s most compelling voyeur / raconteur found himself with a producer who could substantiate the power of his images.
The project became something of a cause and a personal obsession. Lou had convinced RCA of the commercial potential of the album, telling them “how astute it would be to follow up Walk On the Wild Side [o single extraído do aclamadíssimo álbum Transformer] with not just another hit single but with a magnificent whatever. I shoved it through”. Musicians working in the studio ten hours a day are less easy to jive. Recording once again in London, to avoid being forced to use the RCA studios in New York, Lou watched his superstar sideman fall under the spell. “Jack Bruce”, he recalled, “wasn’t supposed to be on the whole thing, but he went through the whole trip because he liked it a lot.”
In Ezrin, Lou found his most fanatical acolyte. For fourteen and twenty hours a day, Ezrin correlated technology and talent, until he went completely over the edge. After three weeks he had to be put away in a quiet place where the only tracks were those made by birds on the windowsill. “I got home and I started breaking things. It literally drove me crazy. I couldn’t control myself”, he later told Steve Gaines. “Doing that album”, said Lou, “did have its effect on Bobby.”
[…]
Berlin was released in 1973, and immediately drew violent reviews, of which “the worst album by a major artist in 1973” was one of the more restrained. Rolling Stone pronounced it “a disaster”. The New Musical Express found it a sleazefest “that will culminate in a breath-takingly vulgar pair of concerts at London’s Rainbow”. […] Bruce Malamut considered it “the most naked exorcism of manic depression ever to be committed to vinyl”. David Downing wrote in Future Rock that it contained “no hope… (The protagonists) stare straight into each other’s eyes, and find only emptiness”. And Roger Klorese regretted the range of Lou’s vocals, “which sound, typically, like the heat-howl of the dying otter”.
Some were moved to the point of rage, Stephen Davis expanding that “certain records are so patently offensive that one wishes to take… physical vengeance on the artists that perpetrate them… Goodbye Lou”. […]
Lou was always the darling of the critical elite, most of whom were his age and had their sensibilities forged in the heat of the Velvet Underground. They could never dismiss him, always stood quick to forgive, and were the first to spot any poetic shard of Enduring Beauty. Paul Nelson called the album “unforgettable in many ways… and probably underrated”. But John Rockwell of the New York Times was the most perceptive of all, terming it “one of the strongest, most original rock records in years”, and lauding the poetic and theatrical impulses that informed the work.
[…]
The album crept slowly up the US charts but actually made it to #7 in Britain by the end of October. Sales were perfectly respectable for a normal artist, but following the blaze of Transformer, they appeared a disaster.
During the critical assaults on Berlin, Lou had decided that almost all rock critics were his natural enemies. They complained that he had sold out his arty cult roots when Wild Side was commercially successful. When he returned to a more complex and deeply felt style, they complained that he was no fun, and much too neurotic to relate to everyday life. “Who cares about critics?” was one of his more printable replies. “Berlin was an album for adults.”
Some critics came to change their minds about Berlin. The album has been judged a sort of masterpiece, and there has been a steady demand for its re-release. Rare copies fetch about $45 in oldies emporiums. Its songs and emotions have stood the test of a decade. The man was always ahead of his time.
The emotional devastation of the album was not confined to its audience. Even as Bob Ezrin recovered from studio psychosis, his personal life suffered. And then Betty [a então companheira de Lou Reed] left Lou. General opinion is that Betty was a sane, right thinking person who could not understand the obsession with drugs, despair and suicide. […]
The florid cinematic images of Berlin impressed lifetime admirers. Andy Warhol announced his desire to make it into a musical comedy starring Lorna Luft, though the project has gone unrealised. So has Lou’s hope, expressed in Melody Maker later, that Roman Polanski make a nice decadent movie. “And I’ve been waiting for someone to make it into an opera…”
The album has an eerie legacy. It helped to create the image of Berlin city as a wellspring of artistic inspiration. The icy synthesizer rock coming out of the superb studios there lured experiments like Iggy Pop [oiça-se o álbum Idiot], David Bowie [álbuns Low e Heroes, nomeadamente] and many others to take up residence. Lou didn’t need the place. “The whole thing is just fantasy.”»

[Diana Clapton, Lou Reed & The Velvet Underground: Nova Iorque / Londres, Proteus Books, 1982;
no clip: The Kids;
dois anos depois da publicação de Berlin a degradação crescente das relações profissionais de Lou Reed com casa editora, que pouco fez pelo álbum, acabaram por adquirir o impulso de uma vingança fria, traduzido no cumprimento do contrato de publicação com a gravação do insolente duplo Metal Machine Music – algo como 60 minutos de ruído branco gerado aleatoriamente por circuitos eléctricos... «Who am I writing this for, anyway?» exprime bem a ruptura entre o artista desconsiderado e o mundo que o rodeava.]

Selecção de PCD

Os Jogos Olímpicos já começaram. Não há muito tempo, foi o pentatlo do Tibet, resultando em muito focinho partido, muito armazém chinês tomado de assalto, muito monge budista posto de cana. Score espectacular absoluto: 5 estrelas!
Mais recente, em modalidade aquática, foi a autorização de desembarque, na costa angolana, de um navio cheio com armamento enviado da China a um país africano à míngua de ajuda “humanitária”, e que umas dissonantes vozes do contra, um pouco por todo o mundo, queriam impedir. Outro score para a História da barbárie televisiva!
Anteontem, foi o que foi: uma firma bancária nacional promove a vinda do artista-live-aid, e (modalidade esgrima com florete desembolado), em vez de música pop bem-intencionada, saiu vómito na lapela e no couvert de tudo quanto é corpo diplomático, governante, empresário, assessora-de-braguilha, etc.: «Angola é um país governado por um bando de assassinos!»

Paulo da Costa Domingos



Mesmo a calhar... Não simpatizava lá muito com o gajo mas chapeau para Bob Geldof. Há anos que não ouvia ninguém denunciar directamente – e no ninho das víboras – altos criminosos, num fórum dos mesmos e com os seus cúmplices a escutarem. Claro que a censura mediática (televisiva, sobretudo) actuou imediatamente em França, na Espanha, na GB, cá, na Itália, etc.
Qual esquerda, qual blá-blá; é preciso é ter as tripas a ferver de raiva... Boa Bob.

João Bafo

Antena: João de Deus



«EPIGRAMA

Ó Enxúndia! Deixa a poética,
Que tens a musa raquítica!
É melhor mudar de táctica;
Lança-te antes à política,
Segue a vida diplomática...»

[in Museu Ilustrado: Porto, 1879]

Selecção de PCD


Terça-feira, 6MAIO, foi um ver se te avias.
Às 2h49, o João Bafo retorque a Cartas na mesa 110:
«Salvo uns erros de editing (o Nino Proletario não faz parte do Teatro, mas lá pus um é (venha o acordo para passar a pôr sempre & ahahaha), os nossos gostos em matéria de Lamborghini podem até coincidir mas o gajo era torcido...
Quanto ao resto, Bingo! amigo Fallorca a loiraça pois pois... apesar da porra da pressão liberal, mais, Madrid ainda é uma festa. Dentes de origem? Detesto desde miúdo; “invenção” horrível, doem, ficam feios, estragam-se, só são bons mesmo para mastigar. Vou pelo plástico: uma beleza, amovíveis sem dor nem cor, por vezes o progresso não é mau de todo. – jb»

Às 8h56, nuestro hermano
Maguila deixou comentário a Tresli... e até nem desgostei! 53:
«En cambio yo no pude parar de leer Tadeys hasta el final, y no sólo una, si no varias veces. La literatura de Lamborghini se transformá en un vicio a partir del momento en que di con ella.»


Às 10h579, ainda as Cartas na mesa 110:
«Caríssimos JF e PCD
Têm vocências toda a razão. Naquele dia deu-me pr’ali, qu’havemos de fazer? Teria acordado com os pés de fora ou, quando cheguei ao vosso blog, já levara com qualquer ácido no focinho e saiu-me o comentário.
De resto, o que me traz ao vosso blog é, como disse, a minha asma. Aqui respira-se bem. E, que diabo, um revisor de provas ou um policiazeco ou outro qualquer título pouco abonatório, segundo a vossa justiça poética, também precisa de respirar. – Carlos Bessa»

Quarta-feira, 7MAIO, às 15h54, Espanha continuava connosco (Arturo Pérez Navarro) a propósito de Vozes Razoáveis 515: William Shakespeare:
«Es un buen blog el tuyo, me gusta.»

Vozes Razoáveis (516): Betty Davis



YOUR MAMA WANTS YA BACK

[in They Say I'm Different (1974): Seattle, Light In the Attic Records, 2007]
Selecção de PCD




«ULYSSES:

Troy, yet upon his basis, had been down,
And the great Hector’s sword had lack’d a master,
But for these instances.
The specialty of rule hath been neglected;
And, look, how many Grecian tents do stand
Hollow upon this plain, so many hollow factions.
When that the general is not like the hive
To whom the foragers shall all repair,
What honey is expected? Degree being vizarded,
The unworthiest shows as fairly in the mask.
The heavens themselves, the planets, and this centre
Observe degree, priority, and place,
Insisture, course, proportion, season, form,
Office, and custom, in all line of order:
And therefore is the glorious planet Sol
In noble eminence enthroned and sphered
Amidst the order; whose medicinable eye
Corrects the ill aspects of planets evil,
And posts, like the commandment of a king,
Sans check to good and bad. But when the planets
In evil mixture to disorder wander,
What plagues and what portents, what mutiny,
What raging of the sea, shaking of earth,
Commotion in the winds, frights, changes, horrors,
Divert and crack, rend and deracinate
The unity and married calm of states
Quite from their fixure! O, when degree is shaked,
Which is the ladder to all high designs,
The enterprise is sick! How could communities,
Degrees in schools, and brotherhoods in cities,
Peaceful commerce from dividable shores,
The primogenitive and due of birth,
Prerogative of age, crowns, sceptres, laurels,
But by degree, stand in authentic place?
Take but degree away, untune that string,
And, hark, what discord follows! each thing meets
In mere oppugnancy: the bounded waters
Should lift their bosoms higher than the shores,
And make a sop of all this solid globe;
Strength should be lord of imbecility,
And the rude son should strike his father dead;
Force should be right; or rather, right and wrong,
Between whose endless jar justice resides,
Should lose their names, and so should justice too.
Then every thing includes itself in power,
Power into will, will into appetite;
And appetite, an universal wolf,
So doubly seconded with will and power,
Must make perforce an universal prey,
And last eat up himself. Great Agamemnon,
This caos, when degree is suffocate,
Follows the choking.
And this neglection of degree it is
That by a pace goes backward, with a purpose
It hath to climb. The general ’s disdain’d
By him one step below, he by the next,
That next by him beneath: so every step,
Exampled by the first pace that is sick
Of his superior, grows to an envious fever
Of pale and bloodless emulation;
And ’tis this fever that keeps Troy on foot,
Not her own sinews. To end a tale of length,
Troy in our weakness stands, not in her strength.»

[in Troilus and Cressida: Nova Iorque, Fred DeFau & Company, 1900]

Selecção de PCD

Quando até os macacos do nariz ganzavam




Chappaqua de Conrad Rooks

Piqueno vídeo snifado à mesa do Café dos Loucos por

Jorge Fallorca, allgures no Al-Gharb

Let the Sunshine In




«THE FLESH FAILURES
(LET THE SUNSHINE IN)
[Gerome Ragni / James Rado / Galt MacDermot]

We starve-look
At one another
Short of breath
Walking proudly in our winter coats
Wearing smells from laboratories
Facing a dying nation
Of moving paper fantasy
Listening for the new told lies
With supreme visions of lonely tunes
Somewhere
Inside something there is a rush of
Greatness
Who knows what stands in front of
Our lives
I fashion my future on films in space
Silence
Tells me secretly
Everything, everything

Manchester England England…
(Eyes look your last)
Across the Atlantic Sea
(Arms take your last embrace)
And I'm a genius genius
(And lips oh you the doors of breath)
I believe in God
(Seal with a righteous kiss)
And I believe that God believes in Claude
(Seal with a righteous kiss)
That's me, that's me, that's me
(The rest is silence, the rest is silence…)

Singing our space songs on a spider web sitar
Life is around you and in you
Answer for Timothy Leary, dearie
Let the sunshine
Let the sunshine in
The sun shine in…»


[Estreado em 1967, Outubro 17, o emblemático musical Hair será registado em estúdio, em versão definitiva, a 6 de Maio do emblemático ano de todos os perigos: 1968. Tal versão, com o elenco original, continua a ser aquela que, volvidos tantos anos e passadas tantas águas, mantém uma irredutível frescura juvenil. (EUA, RCA Victor / BMG, CD de 1988)]

Selecção de PCD

Quem se bloga assim… não é gago! (11)



«Das febras do Avante para as espumas do Eleven
é só um passinho

O argumento de que permitir pavilhões diferenciados iria partir o evento ao meio, de um lado uma feira de ricos e do outro uma de pobres é sobretudo idiota: “Não devemos ser obrigados a comer todos numa tasca. Se me apetecer gastar dinheiro num restaurante rico, ninguém tem nada com isso.”

Declarações do camarada Zeferino Coelho, editor da Caminho, adquirida pelo grupo Leya, a propósito da realização da feira do livro nos mesmos moldes – Público, sem link.»

… mas aqui alinkado à cela do mano
http://irmaolucia.blogspot.com/

Jorge Fallorca, allgures no Al-Gharb


[pintura de Max Beckmann: A Noite]

Vozes Razoáveis (514): Julian Beck


«I am a slave who came out of Egypt. I have a slave mentality. Out of the house of bondage, into the house of employment. What an illusion, three thousand five hundred years ago, when we moved out of one culture into another, thinking we were going to be our own masters from then on! We got rid of a political master, and were too inexperienced to recognize the true function of the Paymaster, the Chief of Police, the Pillars of Society.
The prediction (when we were dancing around the Golden Calf): precious stones, warships, waste, doom, etc. We have not yet stopped dancing around that false god, metal, that does not feel, Mammon, idol of riches, and that’s why we are still in the desert. When we entered the Promised Land we carried the Golden Calf with us, not on our backs, but in our hearts, and made the Promised Land into the desert, which is the only place where the Golden Calf ever is: because the radiance of the gold (radiation) dessicates the foliage, dries up the rivers (the blood), and the vessicles of the heart. The Golden Calf is the false promise.
Among my brethren are many who dream with wet pleasure of the eight hundred pains and humiliations, but I am the other kind: I am a slave who dreams of escape after escape, I dream only of escaping, ascent, of a thousand possible ways to make a hole in the wall, of melting the bars, escape, escape, of burning the whole prison down if necessary. – Croisy-sur-Seine, France. April 1970»

[in The Life of the Theatre: São Francisco, City Lights, 1974;
foto de Julian Beck: Robert Altman]

Selecção de PCD

Cartas na mesa (110)



Quinta-feira, 1MAIO, às 10h46, Oh! pus, dizei foi assim comentado por um leitor anónimo:
«Parece os poemas que os professores do básico pedem aos alunos para escrever. E a pseudo-interpretação de Mário Crespo torna-o ainda menos razoável. O senhor devia de se dedicar à pesca em vez da poesia.»
Segunda-feira, 5MAIO, às 5h49, Tresli… e até nem desgostei! 53 recebe nota de leitura do João Bafo:
«Quando o xiste é dirigido a quem tanto aprecia alguma obra de Lamborghini – El Niño Proletario é um dos sete volumes do Teatro Proletario de Camara que devorei em castelhano umas tardes preguiçosas no Nebraska da Gran Via, enquanto cá fora uma loiraça entradota, num soberbo casaco de vison, vendia o El Gordo, e a De Liniers andava a tratar da vidinha de um amigo meu, que me deu boleia até à movida madrilena –, o xiste, dizia eu, até pode vir a sangrar gordura, colorau e vinagre. Uma bifana dessas não se come todos dias!
E nunca mais saem os Detectives Selvagens do Bolaño, ou estão à espera que se demitam, como o de Portimão? Ahahahahahahahahah – jb»


[JB,
procurei essa especialidade fundamentalmente para ti, o que não me impediu de – retirada a folha de louro, faz-me azia – a saborear tão bem quanto mo permitem os meus quatro (4) dentes de origem. Qualquer dia pareço o Cesariny, salvo a poesia, a pintura e o resto.
Essa loira (com um ventre coroado com espessas folhas de louro), não era uma artista que parava muito pelo Chicote, uns metros abaixo da Telefónica?
Bem me parecia… e logo à 2.ª, movia-se, ah pois! – JF]




Ainda a mensagem, por nós ontem aqui comentada, de Carlos Bessa…
Caríssimo poeta Carlos Bessa,
no meu tempo hertziano (de martelada e avinagrada memória) dizia-se, e com razão, «é rádio… humano és de». E não me consta que a afirmação incluísse o outro ossinho gémeo, o cúbito.
Precisamente no momento em que nos babamos de contentamento pela receptividade da nossa fossilizada, mas imutável maneira de ser e estar perante a vida, comprovada e observada por mais de 100.000 cuscos, que diariamente aqui vêm ao blog, não posso deixar de me surpreender com a oportunidade do seu reparo ao O do seu U da Black SON Editores.
Das duas uma: ou os artolas que nos lêem são todos uns incultos, ou detecto em si uma vocação de revisor de provas… a toda a prova.
Negríssimos cumprimentos deste lado do SUN onde não perco tempo com o SON alheio,
JF

Lá vai mais uma pastilha!

Leave a late show
Still feel alive
Want a place to go
Round about five
Down to the doctors
Down to the doctors
Come on down to the doctors
Make you feel good all night
Everybody needs a shot of r’n’b
So come on down to my surgery
Down to the doctors
Down to the doctors
Come on down to the doctors
Make you feel good all night
Eight bars on piano
Down to the doctors
Down to the doctors
Come on down to the doctors
Make you feel good all night
Come here baby
Ain’t gonna do you no harm
I just want to shoot
Some rock’n’roll in your arm
Down to the doctors
Down to the doctors
Come on down to the doctors
Make you feel good all night
Down At The Doctors

Dr. Feelgood, 12. Down at the Doctor's

Selecção de JPP





A sede que se deseja!

Selecção de JPP

Memes 187 - Um grito primordial

Your soul dont burn

You dark the sun you

Rain down fire on everyone

Scabs, police, government thieves

Venal psychic amputees

Parasitic your syphilitic

Parasitic your syphilitic

Swastika eyes

You got

Swastika eyes

You got

Swastika eyes, swastika eyes, swastika eyes

I'll vent my spleen

I'll keep my dreams

My flesh my bones my soul I own

My minds a weapon immune from infection

Blood in my eyes, my vision is clear

Parasitic your syphilitic

Parasitic your syphilitic

Swastika eyes

You got´

Swastika eyes

You got

Swastika eyes, swastika eyes, swastika eyes

I see your autosuggestion psychology

Elimination policy

A military industrial

Illusion of democracy

Swastika eyes

You got

Swastika eyes

You got

Swastika eyes, swastika eyes, swastika eyes



Primal Scream, War Pigs (Swastika Eyes)

Selecção de JPP

O festival de cinema Indie Lisboa ’08 já passou duas vezes (a 24 de Abril e a 3 de Maio) um longo videoclip com a integral da muito recente remake do então (1973) notável álbum Berlin de Lou Reed. Trata-se da máquina promocional, posta em marcha pelos agentes do realizador e, nomeadamente, do músico, a antecipar-nos o concerto que aí vem, agendado para o Campo Pequeno, dia 19 de Julho. E somente isso.
Quanto a cinema, propriamente dito, o realizador Julian Schnabel esqueceu-se de mostrar-nos o fio da meada, ou seja: quem é o nova-iorquino Lou Reed (um terço da sala, na sessão do dia 3, no mínimo ignorava mesmo quem terão sido os Beatles) e, sobretudo, já que é esse o fulcro temático do pressuposto filme, onde encaixa Berlin no conjunto da obra do músico. Pelo que, o que até poderia ter sido um aceitável documetário em torno desta obra ou da carreira do músico, não passa de um cansativo spot publicitário – o concerto colhido a seco –, daqueles que os promotores dos artistas enviam à frente, como mostruário, a colher reservas contratuais por esse mundo fora. O DVD seguir-se-á dentro de momentos, decerto. Mas fraca é a realização.
Do ponto de vista do trabalho de recolha de imagens, nota-se que os operadores de câmara, ignorando os diversos passos musicais e até aquilo para que foram contratados, passam o tempo todo em desespero à procura de qual instrumento esteja a sair um solo. O estilo, entretanto, é o de improviso directo televisivo: câmara ao ombro, e seja o que deus quiser! Isto ao serviço de um autor e de uma obra com pauta escrita! Depois, a montagem do material fílmico só acentua o desnorte, com as referências visuais derivativas que Lou Reed (ou lá quem lhe encenou o espectáculo) fez projectar quer em fundo de cena, quer sobre os músicos, e com as quais Schnabel nos esfrega os olhos a distrair-nos da trapalhada caótica que a sua realização é.
Do ponto de vista daquilo que seria de prever num compositor e intérprete como Reed, apesar da altíssima qualidade criativa dos músicos que o rodeiam, é de fugir a correr para casa e mergulhar os neurónios, a líbido, na gravação original de 1973… Aquela que, na altura, tanto os fãs dos Velvet Underground como toda uma indústria discográfica, que começava a ver com bons olhos a carreira a solo de Reed, sem excepção odiaram, transformando instantaneamente Berlin numa obra de culto entre apreciadores do bom produto para agulhas. A voz neutra, branca, do antigo Lou Reed… foi-se (mas foi-se há muito, não é de agora), o que justificará os novos arranjos dos temas, e a substituição do som das guitarras Gibson Les Paul (se o ouvido não me trai…) pela aspereza fricativa da Gretch de Steve Hunter, de modo a suportarem outra respiração do artista e um timbre vocálico completamente despido da crueldade distante e opressa que constituíam a sua marca forte em 1973. Os tempos lentos, esses, então, são uma desgraça. Quem espere a oportunidade de ser hoje atravessado pela alta angústia que, irrespirável, saía das espiras do velho disco mitigando a frouxa esperança nos anos 70, pode esquecer: Lou Reed já só consegue falar-nos através do instrumental – aí é brilhante. A voz, porém, deixou de servir a antiga musa, o que explicará o seu nostálgico ar embeiçado com a cantoria castrati de Anthony num dos três extras do concerto (estes, sim, soberbos no serviço prestado à nova musa).

Paulo da Costa Domingos









«THE BED

This is the place where she lay her head
When she went to bed at night
And this is the place our children were conceived
Candles lit the room brightly at night
And this is the place where she cut her wrists
That odd and fateful night
And I said, oh, oh, oh, oh, oh, oh, what a feeling

This is the place where we used to live
I paid for it with love and blood
And these are the boxes that she kept on the shelf
Filled with her poetry and stuff
And this is the room where she took the razor
And cut her wrists that strange and fateful night
And I said, oh, oh, oh, oh, oh, oh, what a feeling

I never would have started if I'd known
That it'd end this way
But funny thing I'm not at all sad
That it stopped this way

This is the place where she lay her head
When she went to bed at night…»

[no clip: o som original de 1973]
Selecção de PCD

Cartas na mesa (109): Soalheiro

Sábado, 3MAIO, às 10h56, Vozes Razoáveis 513: Adília Lopes teve do poeta Carlos Bessa o seguinte reparo:
«Caro Paulo da Costa Domingos,
Antes de mais, deixe-me dizer-lhe que sou visita assídua desta casa, pela higiene e pelo ar que se respira. Hoje, ao ver o nome da editora desse livro da Adília, apercebi-me que já o vi grafado da mesma maneira noutros sítios, embora, se não estou em erro, seja um lapso motivado pelo símbolo usado, que sugere um O, mesmo quando é um U, de sun, sol.
Abraço – Carlos Bessa»

Carlos, folgo por tê-lo como leitor também do nosso modesto blog. Quanto ao assunto, deve o Carlos ter razão; até porque o Carlos se encontra mais próximo do editor da chancela (para quem não saiba: o poeta Fernando Guerreiro). Todavia, concordará que o desenho do logotipo é subtilmente insinuante de um feliz sentido de "filho preto" (ou "negro", lá dizia Rimbaud), um sentido de "ovelha ronhosa"; que é o que são de facto estas nossas muito pequenas editoras (a frenesi incluída) no grande mar do contrabando das ideias. Pelo menos a ambiguidade não trai o espírito poético… E, por outro lado, já que não teve baptismo português, Black Son escapa de copiar a Soleil Noir francesa, ou a Black Sun norte-americana. Mas, como essa chancela editorial não me pertence, será aquilo que vocês quiserem. Caramba! em duas mil e tal entradas no nosso blog só isto é que mereceu uma palavra sua?!... – Paulo da Costa Domingos

Tresli… e até nem desgostei! (53)




«OSVALDO LAMBORGHINI: MÁRTIR

Hay libros que inspiran miedo. Miedo de verdad. Más que libros parecen bombas de relojería o animales falsamente disecados dispuestos a saltarte al cuello en cuanto te descuides. Esta experiencia yo sólo la he tenido en dos ocasiones. La primera fue hace mucho tiempo, en 1977 o 1978; leía entonces una novela breve en una de cuyas páginas se advertía al lector que a partir de ese momento podía morirse. Es decir que se podía morir literalmente, caerse al suelo y no levantarse. La novela era La Asesina Ilustrada, de Enrique Vila-Matas, y que yo sepa ninguno de sus lectores se murió aunque muchos salimos transformados después de su lectura, con la certeza de que algo había cambiado para siempre en nuestra relación con la literatura. La Asesina Ilustrada, junto con Los Dominios del Lobo, la primera novela de Javier Marías, marca el punto de salida de nuestra generación.
La segunda novela que me ha producido verdadero miedo (y esta vez el miedo ha sido más fuerte, porque no atañe a la muerte sino al dolor y la humillación) es Tadeys, la obra póstuma de Osvaldo Lamborghini. No existe novela más cruel. La empecé a leer con entusiasmo – un entusiasmo refrenado por la prosa original de Lamborghini, frases como salidas de la pintura flamenca y de un improbable pop-art argentino y centroeuropeo, guiado además por mi admiración por César Aira, discípulo y albacea de Lamborghini, autor del prólogo que abre esta novela inclasificable –, y mi entusiasmo o mi inocencia de lector se vio parada en seco por la escritura del terror que me aguardaba. Sin la menor duda es el libro más bestia (no se me ocurre otro calificativo) que he leído en español en este siglo que se acaba. Es magnífico, es un regalo para un escritor, pero resulta imposible leer más de veinte páginas seguidas, a menos que uno desee contraer una enfermedad incurable. Yo, por supuesto, no lo he terminado y probablemente me moriré sin acabar de leerlo. Pero no lo voy a dejar. De vez en cuando me siento valiente y leo una página. En noches excepcionales puedo leer dos.»

[Roberto Bolaño, Entre Paréntesis; Compactos Anagrama (2.ª ed., Fevereiro 2006), Barcelona]

… e para quem tenha ficado com as meninges a salivar, que tal um pulinho até esta rulote de bifanas que encontrei aqui:
http://www.nacionapache.com.ar/archives/383

Jorge Fallorca, allgures no Al-Gharb

Vai-te curar!


Dr. Feelgood


«YOU SHOULDN'T CALL THE DOCTOR

Girls if your heart is feeling sore
Call the doctor and he'll fix it for sure
I'll be over right away but you might find you have to pay
For a private consultation and a guaranteed cure
When you're dying of a dreadful disease
You don't worry 'bout the medical fees
And it's too late to change your mind the doctors pulling down the blind
And your temperature is rising to a hundred degrees
I'll cuddle up beside you for a start
And listen to the beating of your heart
And then he'll take you gently by the hand
And ask you when the trouble first began
And then he'll look down deep into your eyes
And if your temperature continues to rise
There's only one way to make it stop
I'll have to prescribe the strongest medicine I've got
If this doesn't cure you it'll kill
But I know it's going to give you a thrill
And now I've come across don't complain about the cost
You shouldn't call the doctor if you can't afford the bills

I'll cuddle up beside you for a start
And listen to the beating of your heart
And then he'll take you gently by the hand
And ask you when the trouble first began
And then he'll look down deep into your eyes
And if your temperature continues to rise
There's only one way to make it stop
I'll have to prescribe the strongest medicine I've got
If this doesn't cure you it'll kill
But I know it's going to give you a thrill
And now I've come across don't complain about the cost
You shouldn't call the doctor if you can't afford the bills»

[in Going Back Home (1975):
Londres, AbbeyRoad Interactive / Liberty / EMI (DVD), 2005]
Selecção de PCD

Vozes Razoáveis (513): Adília Lopes


«FLORBELA ESPANCA ESPANCA

Eu quero foder foder
achadamente
se esta revolução
não me deixa
foder até morrer
é porque
não é revolução
nenhuma
a revolução
não se faz
nas praças
nem nos palácios
(essa é a revolução
dos fariseus)
a revolução
faz-se na casa de banho
da casa
da escola
do trabalho
a relação entre
as pessoas
deve ser uma troca
hoje é uma relação
de poder
(mesmo no foder)
a ceifeira ceifa
contente
ceifa nos tempos livres
(semana de 24 x 7 horas já !)
a gestora avalia
a empresa
pela casa de banho
e canta
contente
porque há alegria
no trabalho
o choro da bebé
não impede a mãe
de se vir
a galinha brinca
com a raposa
eu tenho o direito
de estar triste»

[Lisboa, Black Son Editores, 1999]

Selecção de PCD

«She Left Home»


A composição é de Djamel Benyelles (violino), acompanhado por Fred Maggi (piano), Amel Riahi el Mansouri (lute) e Aziz Boularoug (percussão).
Trata-se do conjunto de músicos com que Jane Birkin se apresentou no Odéon (Paris) em 2002! Inesperado, no meio de um concerto delambido, como atesta Arabesque (DVD).

Selecção de PCD

Rebarba alfarrabista


http://www.pawelwojcik.com/grandfathersgirls/
[aceda ao álbum e folheie as páginas clicando no canto inferior direito do ecrã]

Selecção de Jorge Fallorca, allgures no Al-Gharb

Vozes Razoáveis (512): Wilhelm Reich


«A família burguesa tem por tarefa criar seres submissos, tornando-os desde novos aptos para o casamento. […]
[…] a vida sexual burguesa movimenta-se sempre entre contradições: elogios à mulher e ao amor, por um lado; humilhação e aviltamento da mulher e do amor, por outro lado.
A divisão da sexualidade em sensualidade degradada e em amor sublimado (que dá origem, no regime burguês, a sistemas inteiros de filosofia sobre o problema da "sexualidade" e do "erotismo") não passa na realidade de uma simples expressão do primado do marido, necessário à economia privada (direito dee herança em linha paterna) e, além disso, consequência dos esforços da classe burguesa para se distinguir da classe dominada, por uma certa moral particular. As mulheres burguesas só devem ser acessíveis no casamento, e a homens burgueses. As relações sexuais estão banidas fora do casamento e com proletários. Mas o primado do homem suprimiu estas restrições no sexo masculino. O acto sexual tormou-se realmente humilhação para a mulher, algo de brutal; é por isso que as mulheres se defendem afectivamente contra o aviltamento que para si representa, nestas condições, o acto sexual.
A indignação perante as consequências destes princípios morais manifestou-se progressivamente no seio da burguesia, a qual nunca esteve nem jamais estará pronta a abandonar os seus princípios, mas quer sempre dissimular a sua torpeza. Na burguesia liberal e nos movimentos feministas burgueses não se torna um escândalo a palavra "camaradagem", entre o homem e a mulher. Diz-se que a mulher já não deve ser uma escrava, mas sim "a camarada do homem", não um objecto sexual, mas "a companheira para a vida". A instituição podre do casamento acaba por ser de novo reconstituída sobre esta base. Ao dualismo burguês "espírito e corpo", "ternura e sensualidade", "erotismo e sexo", ao verdadeiro aviltamento burguês da sexualidade sucedeu a recusa das relações "unicamente sexuais". Devido à disparidade das relações de ternura, devido ao aniquilamento económico das relações de companheirismo entre homem e mulher, a sexualidade física tornou-se algo de semelhante à defecação, contrária a toda a sensibilidade humana.
Grandes massas da pequena-burguesia reaccionária vivem ainda actualmente, como há vinte ou quarenta anos, com uma sexualidade dividida e, quanto ao homem, com uma sexualidade reduzida a mera ejaculação. Uma minoria (em particular nos meios intelectuais burgueses) libertou-se, com o decorrer do tempo, das cadeias da moral burguesa; mas isso constitui para nós casos particulares sem interesse, sem qualquer influência na vida sexual à escala colectiva, mesmo que se estabeleçam ocasionalmente relações de camaradagem sexual. Enquanto a educação na família e na escola continuar o que é (e assim continuará enquanto subsistir o capitalismo), não poderá existir verdadeira camaradagem entre sexos, salvo entre as camadas do proletariado que tenham consciência de classe, e entre a juventude.
[…] Por camaradagem, entendemos uma relação baseada em comunidade de interesses intelectuais, ou uma boa amizade fundada no entendimento sexual, mesmo sem comunidade de interesses. Pode haver igualmente uma boa camaradagem entre rapazes e raparigas sem relações sexuais; mas quando estas existam, a camaradagem intelectual aumenta nomeadamente a satisfação sexual.
Seria, porém, um erro exigir que não se possam ter relações sexuais quando não haja igualmente camaradagem, no sentido de comunidade de interesses intelectuais. Durante a adolescência, é muitas vezes a amizade sexual que antecede e leva à camaradagem intelectual. […]
Seria grande erro acreditar que estes são assuntos privados sem interesse, porque tais contradições enraizam-se na ordem sexual e na educação capitalista, corrompem a juventude e tornam-na, além disso e frequentemente, incapaz de lutar. Este problema prende muito a nossa atenção. Devemos criar nas nossas organizações uma atmosfera mais livre; rapazes e raparigas devem poder exprimir-se abertamente e dizer qual a atitude que pretendem adoptar uns em relações aos outros, de que é que não gostam nuns e noutros. Será esta a melhor base para uma camaradagem entre rapazes e raparigas, não meramente de frases, mas autêntica, para a luta comum que a juventude, incessantemente mais consciente das suas responsabilidades, terá de levar a cabo contra o sistema de exploração capitalista. […]»

[in O Combate Sexual da Juventude (1932): Lisboa, trad. Francisco Dórdio Menezes, Delfos, 1972]

Selecção de PCD

Sábado, 19ABRIL, às 12h47, Cartas na mesa 107: Fêveras remereceu de alguém (?) o seguinte comentário:
«Olá Paulo. Bem hajas tu e o resto da Frenesi. No Rossio a bucha degustava-se na Marítima, outrora Beira Gare. Podia ser qualquer coisa: bifanas, pasteis, etc., e penalti de branco (mau, mau), que a oferta era vasta. Aqui há meses faleceu o dono, um portista exilado na capital, que se orgulhava de servir um bacalhau na canoa à portuense. Memórias !!!»
Segunda-feira, 21ABRIL, às 7h51, Com acordo ou sem acordo… 13: Mário Cesariny suscitou no nosso leitor
hmbf o seguinte comentário:
«"Caiar lágrimas" é uma bela metáfora. Mesmo quando elas já não caem.»
Terça-feira, 22ABRIL, às 15h34, a escolha Vozes Razoáveis 507: Giorgio Agamben é aplaudida pelo João Bafo:
«Depois do Ivan [Illich] o Giorgio é mesmo da pesada!!! Mas saúda-se a coragem de citar um filósofo que não dá o flanco teórica e praticamente (fisicamente), e que recusou entrar nos USA sujeitando-se ao método de identificação fascista usado pós-Set11. – jb»
Quinta-feira, 24ABRIL, às 5h26,Vozes Razoáveis 508: Florbela Espanca não teve a mesma sorte:
«Muito discutível a pseudo-psicanálise da Bessa-Luís sobre a Florbela. Um emaranhado de palavras bem colocadas não chega para explicar um estro pouco vulgar que a razão lhe enviava às tripas e estas devolvia ao papel. Leigo, suspeito no entanto que havia algo mais (substância ou eflúvio) no corpo e na "alma" da poetisa de Matosinhos.»
[Havia, sim senhor, algo mais. Nomeadamente no corpo. Disse-me há uns anos a esta parte, uma vereadora da câmara de Matosinhos, estava eu a escrever uma reportagem para o Expresso, que a poeta o que tinha era o Diabo no corpo, e os pescadores da praia de Leixões bem no sabiam!… Por isto, fiquei logo supondo que o Diabo a terá levado a meter para dentro outras coisas. Claro que, escusado será dizer, no Expresso – com o Belard ao volante – não foi conversa que se pudesse fazer passar…]
Sexta-feira, 25ABRIL, às 10h55, ainda o João Bafo, a propósito de «Álvaro Lapa: A Literatura», um filme de Jorge Silva Melo:
«Talvez o meu pintor português preferido… Mas hoje, 25 de Abril, nem uma posta celebratória da data. Até parece que "a longa noite fascista" não passou de uma primavera com aguaceiros fortes. Estranho país, estranho povo… Ou não serão todos os povos e países como nós? Viva o 25 de Abril, que libertou os presos políticos, acelerou o fim das guerras coloniais, abriu campo à liberdade de expressão do pensamento e permitiu que os trabalhadores, mercê de grandiosas reivindicações, vissem reconhecido direito e na prática viessem a receber melhores salários – entenda-se que os de miséria, que se praticavam, fossem pelo esgoto da ganância patronal – e outras regalias sociais, que a Segurança Social se tornasse universal como protecção, embora defeituosa, de idosos, de deficientes e de outros carenciados. – jbafo»
[Não deves ter reparado bem na sequência por mim deixada no blog. Pelas 23h de dia 24 activei os Verdes Anos do Carlos Paredes; e logo a seguir, ao primeiro minuto do dia comemorativo do tal promissor dia, dei a conhecer a esta nova geração que nos lê o primeiro sopro de José Duarte em liberdade: o texto por ele lido aos microfones da rádio livre de censura, no seu programa Cinco Minutos de Jazz. E só às 7h23 activei, então, a notícia do filme acerca do meu falecido amigo Álvaro Lapa. Como vês, não estive distraído… Não pode ser sempre slogans operários e baladas-manhosas-em-cadeira-de-rodas, apresentadas na televisão do Estado pela Ana Sousa Dias e por esse ex-paladino da Mocidade Portuguesa, o Júlio Isidro. – Paulo da Costa Domingos]

1.º de Maio


Selecção de PCD



«A decadência geral é um meio ao serviço do império da servidão; e só nessa qualidade, sendo ela esse meio, permite que lhe chamem progresso.
É necessário saber que a servidão quer doravante ser verdadeiramente amada em si mesma; e já não porque ofereça qualquer extrínseca vantagem. Dantes bem podia passar por protecção; mas agora não protege de coisíssima nenhuma. A servidão, agora, não procura justificar-se com a pretensão de haver conservado, seja onde for, nenhum prazer que não seja um único: o de a conhecerem na carne.»

Guy Debord

[in Panegírico: Lisboa, trad. Júlio Henriques, Antígona, 1995]

Selecção de PCD

Oh! pus, dizei